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Quarta-feira, Abril 19, 2006

Origem da Vida


A origem da vida sempre foi e sempre será um dos principais temas que afligem a humanidade, assim como a origem do universo. Com relação a essa última parece que ainda estamos longe de saber, se é que algum dia será possível, o que teria acontecido antes do big bang. De forma oposta, estamos cada vez mais próximos de explicar como a vida poderia ter surgido através de reações químicas espontâneas. Várias teorias têm sido propostas e, a cada dia que passa, o caminho de volta às nossas origens químicas parece ficar mais claro.

Ainda não se sabe se a vida na Terra realmente teria surgido aqui ou em outro lugar do espaço. A teoria da pan-espermia prega que a vida teria surgido em outras partes do universo e trazida para cá através de meteoritos, cometas ou mesmo espaçonaves. Os cientistas que defendem esta teoria argumentam que não houve tempo hábil na Terra para que a vida pudesse ter se originado. Entretanto, essa teoria não resolve o problema do surgimento da vida, apenas desloca-o para outro lugar e ainda cria novas perguntas sobre onde então a vida teria surgido, como ela teria chegado aqui, e em que forma ela teria viajado para chegar aqui.

Deve-se notar, apesar de tudo, que uma boa parte dos químicos pré-bióticos alegam que a vida poderia sim ter sido originada aqui mesmo no nosso planeta. Têm sido propostas novas possibilidades de composições gasosas para a atmosfera primitiva, ao invés daquela amplamente difundida de que a atmosfera era composta de metano (CH4), amônia (NH3), gás carbônico e vapor d’água. Na nova atmosfera proposta, o hidrogênio não estaria ligado ao carbono e sim ao enxofre, na forma de gás sulfídrico (H2S), o nitrogênio estaria na mesma forma que é encontrado hoje na atmosfera (N2) e o gás carbônico e o vapor d’água comporiam os elementos básicos da “nova” atmosfera primitiva. Boas evidências têm sido encontradas para corroborar esse nova teoria.

Mas, independente de qual era a composição de gases da atmosfera, têm sido demonstrado que deve ter ocorrido o acúmulo de moléculas orgânicas, que teriam sido formadas espontaneamente, nos mares primitivos. Foram encontradas quantidades significativas de aminoácidos e de certas bases nitrogenadas, principalmente a adenina, em experimentos feitos que simulavam as condições da Terra primitiva.

Portanto havia, nos mares primitivos, algumas das bases para a construção das moléculas de ácidos nucleicos e proteínas existentes hoje. Entretanto, hoje em dia, as proteínas só existem se forem codificadas por ácidos nucléicos, e os ácidos nucleicos só se replicam com a catálise pelas proteínas. O que teria surgido primeiro então: um tipo de ácido nucleico ou uma proteína? Essa pergunta tem dividido os pesquisadores e a resposta ainda não foi encontrada.

Os genecêntricos acreditam que uma molécula similar a um RNA surgiu primeiro e essa molécula tinha a capacidade de catalisar a sua própria replicação, já que foram encontrados vários exemplos de RNAs apresentando atividade catalítica. Os proteinocêntricos acreditam que as proteínas teriam surgido primeiro através da ligação de aminoácidos catalisada, por exemplo, por moléculas de tio-ésteres. Outros pesquisadores acreditam na existência de uma chamado ácido nucleico peptídico ou PNA, onde a espinha dorsal do ácido nucleico não seria formada por um açucar e um grupo fosfato e sim por aminoácidos!

A teoria genecêntrica tem conseguido bastantes seguidores e já mostrou que pode estar correta, sendo que vários evidências indiretas já foram encontradas do fato de ter existido realmente o chamado mundo do RNA. Segundo essa teoria, moléculas auto-replicantes teriam surgido espontaneamente através de reações químicas. Entretanto, a replicação dessas moléculas não era perfeita e elas iam adquirindo erros de cópia ao longo de seguidas replicações. A grande maioria desses erros tornava as moléculas mais instáveis e fazia com que fossem degradadas mais rapidamente do que o normal. Entretanto, alguns erros faziam-nas mais estáveis ou proporcionavam uma menor taxa de erros em sua duplicação, ou promoviam uma replicação mais rápida.

Dessa forma, teria havido uma competição entre elas pela disponibilidade dos elementos que as formavam no meio (seus blocos químicos de construção), uma verdadeira seleção natural de moléculas. Assim, aquelas que se replicavam mais rapidamente, eram mais estáveis e apresentavam maior fidelidade de cópia, logo teriam conseguido aumentar seu número no pool de moléculas. Novas sofisticações poderiam também surgir, por exemplo, uma molécula que conseguisse destruir outra para utilizar seus blocos de construção em sua própria replicação, teria uma vantagem seletiva e conseguiria, ao longo de gerações, aumentar seu número no pool de moléculas. Posteriormente, moléculas que conseguissem se defender das outras, por exemplo, encapsulando-se dentro de uma membrana lipídica, teriam também uma maior chance de aumentar seu número após algumas gerações.

Muito tem sido feito para tentar criar explicações melhores e fechar alguns buracos na teoria que mostrariam de forma inequívoca como um simples RNA replicador teria conseguido formar, por exemplo, uma célula simples. Os estudos nessa área têm avançado e esperamos que, um dia, consigamos montar uma teoria robusta que explique melhor como a vida teria surgido a partir de reações químicas espontâneas. Enquanto a teoria não vem podemos nos divertir escutando os mais diferentes e absurdos mitos sobre o surgimento da vida.