Ancestralidade comum e o Tribalismo
Recentemente, três ícones da música brasileira se reuniram e criaram um movimento, ou um anti-movimento como dizem em alguma de suas músicas: o Tribalismo. Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes produziram música brasileira e arte da melhor qualidade. Colaboradores de longa data, os três foram capazes de produzir o CD Tribalistas em tempo recorde e vêm fazendo grande sucesso nas rádios. Gostei particularmente da faixa número 13 do CD, que escuto nesse momento, intitulada exatamente “Tribalismo”. A letra e a melodia são bastante agradáveis e a filosofia tribalista é bastante interessante, moderna e inteligente. Foi somente depois da terceira ou quarta vez que escutei a música que percebi um erro conceitual na letra, motivo pelo qual escrevo esse texto.
“Os tribalistas já não querem ter razão
não querem ter certeza não querem ter juízo nem religião”
Bem, se os tribalistas não querem ter razão isso facilita a abordagem corretiva que pretendo levar ao longo desse texto. Realmente eles não têm razão em uma parte da letra posterior a essa frase inicial. O erro encontrado é bastante comum; um erro evolutivo que, como geneticista, tenho a obrigação e o prazer de esclarecer. Vejam a frase a seguir:
“Um dia já fui chimpanzé
agora eu ando com o pé
Dois homens e uma mulher
Arnaldo, Carlinhos e Zé”
Talvez o leitor acredite que o erro encontre-se nos nomes dos tribalistas. Definitivamente, não me parece que “Arnaldo, Carlinhos e Zé” sejam realmente “dois homens e uma mulher”. Isso me incomodou à primeira vista. Pensei que os tribalistas tivessem alterado o nome do componente feminino do grupo justamente para fazer uma rima que tornasse a música mais agradável. Afinal uma frase “Arnaldo, Carlinhos e Marisa” não cairia muito bem junto à melodia.
Foi pesquisando na internet para escrever o presente texto que encontrei a informação de que Zé parece ser realmente um apelido da Marisa Monte, algo como um diminutivo de Marisete. Zé. Seja qual for o motivo: verdadeiro apelido ou verdadeira melodia, não é isso que gostaria de discutir aqui.
O principal motivo pelo qual estou aqui é tentar explicar melhor a frase “Um dia já fui chimpanzé”. Primeiramente gostaria de parabenizar os tribalistas por acrescentarem uma frase mostrando o pensamento evolutivo em uma de suas músicas. É realmente importante tentar educar através da música. Infelizmente nossos ídolos musicais foram infelizes exatamente nessa frase.
A teoria da evolução por seleção natural foi proposta por Charles Darwin em 1859 e permanece basicamente a mesma vigente até hoje. Novas descobertas foram feitas e acrescentaram novas informações que corroboraram e tornaram ainda mais confiáveis as idéias evolutivas propostas pelo inglês.
A evolução mostra que todos os organismos existentes hoje em nosso planeta derivam de um único ancestral comum. Ao compararmos dois organismos entre si, sejam eles animais, vegetais ou microorganismos, poderemos supor a existência de um ser que tenha sido um ancestral comum entre eles. Ancestrais comuns podem ser mais recentes ou mais antigos, dependendo das espécies que se compara. O ancestral comum entre humanos e chimpanzés é mais recente do que o ancestral comum entre humanos e baleias, ou entre humanos e cachorros. E isso significa que os humanos são “parentes mais próximos” dos chimpanzés do que das baleias ou dos cães. Entretanto isso não significa que algum dia tenhamos sido chimpanzés, baleias ou cachorros. E não fomos. Veja a figura abaixo:
Até um certo momento, a história evolutiva de homens e chimpanzés era a mesma (ponto amarelo). A partir de um determinado momento, entretanto, uma população de uma espécie ancestral, que não era nem chimpanzé, nem humana, separou-se. Por algum motivo, os membros dessa população ancestral foram divididos. Os membros de uma subpopulação A dessa população ancestral seguiram pra um lado e outros de uma subpopulação B seguiram para outro. Desse momento em diante a população ancestral nunca mais foi a mesma.
Os membros de A foram para um determinado ambiente que exigia determinadas características específicas e os membros de B foram para outro ambiente que exigia outras características adaptativas. Mutações genéticas aleatórias aconteceram em membros da subpopulação A e da subpopulação B e aquelas que não eram ruins ou deletérias foram escolhidas diferentemente por meio da seleção natural para serem mantidas em cada uma das populações. Os traços vermelhos na figura representam as mutações que aconteceram na subpopulação que deu origem aos chimpanzés e os traços verdes representam aquelas que aconteceram na subpopulação que deu origem à linhagem humana.
Depois de milhares de anos acumulando mutações diferentes que foram selecionadas diferentemente pelo ambiente em questão, a população ancestral produziu espécies diferentes, que não eram mais capazes de se reproduzir dando origem a prole fértil.
Dessa forma podemos entender que, ao contrário do que dizem os tribalistas, nós humanos nunca fomos chimpanzés. Apenas dividimos com eles um ancestral comum recente. Vale dizer ainda que nós nunca “fomos” nenhuma das espécies existentes em nosso planeta hoje e sim temos ancestrais comuns com todas elas. E esses ancestrais se modificaram em maior ou menor quantidade para gerar a nossa própria espécie ou qualquer outra que se deseje analisar.
Isso significa também que não há como alterar a letra da música para torná-la correta. O início da frase “Um dia já fui ...” não permite que coloquemos o nome de nenhuma outra espécie existente hoje que permita tornar a música cientificamente correta. E imagino que os tribalistas não estejam também muito interessados nisso...
Talvez, entretanto, pudéssemos acrescentar alguma característica no lugar de “chimpanzé” para tentarmos deixar a música correta, algo como unicelulares. Se a frase fosse “Um dia já fui unicelular”, ela estaria cientificamente correta, mas atrapalharia a melodia. Deixo então para você, leitor, a tarefa de encontrar alguma característica que caiba exatamente no lugar de “chimpanzé” e não atrapalhe a melodia. Talvez você possa um dia encontrar com algum dos tribalistas e sugerir uma modificação na letra. Boa sorte!


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