A dificuldade e a importância da divulgação científica
A divulgação de ciência para leigos é uma das áreas que acho mais interessante na chamada literatura científica. Como leitor freqüente de livros de divulgação, reconheço a importância destes para a compreensão do mundo por leigos e penso como seria interessante se cada vez mais cientistas se interessassem em escrever livros divulgando seus trabalhos para um público não especializado. É impossível que especializemos em todas, ou mesmo em algumas das áreas do vasto conhecimento que a humanidade adquiriu ao longo desses últimos séculos de intensa produção científica. A ciência nos mostrou muito sobre o funcionamento do universo, da vida e da mente e não conheço pessoa alguma que não tenha interesse por compreender melhor tais assuntos. A existência, a persistência e a ampla difusão das mais diversas religiões são provas cabais do interesse humano por tentar entender o mundo que o cerca. Infelizmente a maioria das pessoas procura essas respostas exatamente nas mais diversas religiões, que oferecem respostas fáceis, intuitivas, simples e, na maior parte das vezes, incorretas.
Mas escrevo esse texto como um pretendente a escritor de divulgação científica e me sinto um pouco decepcionado com a área. Escrever sobre ciência é algo bastante difícil, acreditem. Isso vem do fato de que o método científico busca sempre o questionamento de qualquer verdade, o que é fundamental para o desenvolvimento da ciência. Nessa tentativa humana de entender o mundo, que é conhecida como ciência, não há espaço para dogmas, não há espaço para dúvidas e não há espaço para incertezas. Tudo deve ser questionado e tudo deve ser provado sem qualquer sombra de dúvida ou com a menor dúvida possível. E essa é a dificuldade de escrever ciência para leigos. Em um livro de divulgação não se pode ficar especificando demais um caso ou outro e deve-se tentar generalizar ao máximo suas conclusões para que elas se tornem passíveis de entendimento para o leigo. O problema é que, ao generalizar determinada conclusão, esta se torna ligeiramente incorreta. E é nesse ponto que os críticos vão atacar seu texto, pode apostar.
Há pouco escrevia um texto sobre DNA enquanto pensava sobre isso. Nesse texto, dizia que não se conhece organismo em nosso planeta que não possua essa molécula armazenadora do material genético e responsável pela hereditariedade. Em termos de um leigo isso pode muito bem ser verdade, mas o crítico especialista que for avaliar o texto vai discordar do argumento. Isso vem do fato de que, para alguns especialistas (não todos), um vírus pode ser chamado de “organismo”. E existem vírus que não possuem moléculas de DNA. Os retrovírus, como são conhecidos, constituem uma ampla gama de vírus que não contém molécula de DNA e sim uma molécula de ácido nucléico similar, o RNA. Nesses “organismos”, a molécula de RNA realiza, aproximadamente, o mesmo papel do DNA.
Mas não gostaria de entrar em tanto detalhe em meu texto. Não gostaria de ter que explicar o que é o RNA, não gostaria de explicar sua diferença para o DNA, não gostaria de explicar o conceito de organismo e não gostaria de explicar coisas em um nível excessivamente técnico que fariam com o que o leigo perdesse a paciência de ler o texto. É o que iria acontecer, acredito, se me dispusesse a entrar em tantos detalhes desnecessários para a argumentação principal. A fluidez argumentativa do texto parece ser perdida na mesma proporção com que se ganha em detalhamento técnico. Mas é preciso que seja dito: o texto sem os detalhes está, tecnicamente, incorreto.
O problema de escrever divulgação científica é encontrar o limiar, o denominador comum, entre a tecnicalidade e a precisão da argumentação. E posso apostar que assim mesmo, críticas choverão sobre os pontos onde houve muita ou pouca precisão científica. Não há uma fórmula para corrigir e acertar os limiares, cada indivíduo especialista em uma determinada área, vai sempre encontrar algo que, na sua opinião, deveria ter sido comentado mas não foi. Da mesma forma, cada indivíduo leigo em determinada área vai ter dificuldade em entender demasiado detalhe contido na argumentação.
E por isso acredito que os divulgadores de ciência são, na verdade, heróis. Eles não são normalmente considerados por seus trabalhos científicos e os cientistas de sua área freqüentemente criticam-no por não terem dito isso ou aquilo em seus trabalhos de divulgação. Ou criticam-no por terem generalizado demais determinado argumento, tornando-o incorreto. De outro lado, a imprensa leiga atira farpas criticando o rigor argumentativo e a grande quantidade de detalhes e jargões muitas vezes utilizados. Parece-me realmente difícil conseguir satisfazer os dois lados da moeda.
Não obstante, parece-me que vários já conseguiram fazê-lo, como Sagan, Damásio, Dawkins e Gould. Isso incentiva novos autores a tentarem seguir os passos desses grandes mestres e se tornarem grandes divulgadores de ciência. E a sociedade deveria conseguir formas de incentivá-los ainda mais, já que são poucos aqueles capazes de escrever para os dois públicos. Cadeiras docentes para a compreensão pública da ciência deveriam ser incentivadas pelos governos e pelas agências de financiamento de pesquisas, tanto no Brasil como no exterior. Esperamos ansiosamente que as autoridades responsáveis consigam perceber isso e tomem atitudes de forma a incentivar a difusão de conhecimento das universidades para o mundo. Com isso talvez conseguíssemos começar a combater a ignorância e levar conhecimento e ciência para todo a humanidade, ávida por entender o funcionamento do universo, da vida e da mente.

