Ciência On Line

Ciência, dúvida e busca pelo conhecimento.

Quinta-feira, Novembro 30, 2006

A dificuldade e a importância da divulgação científica


A divulgação de ciência para leigos é uma das áreas que acho mais interessante na chamada literatura científica. Como leitor freqüente de livros de divulgação, reconheço a importância destes para a compreensão do mundo por leigos e penso como seria interessante se cada vez mais cientistas se interessassem em escrever livros divulgando seus trabalhos para um público não especializado. É impossível que especializemos em todas, ou mesmo em algumas das áreas do vasto conhecimento que a humanidade adquiriu ao longo desses últimos séculos de intensa produção científica. A ciência nos mostrou muito sobre o funcionamento do universo, da vida e da mente e não conheço pessoa alguma que não tenha interesse por compreender melhor tais assuntos. A existência, a persistência e a ampla difusão das mais diversas religiões são provas cabais do interesse humano por tentar entender o mundo que o cerca. Infelizmente a maioria das pessoas procura essas respostas exatamente nas mais diversas religiões, que oferecem respostas fáceis, intuitivas, simples e, na maior parte das vezes, incorretas.

Mas escrevo esse texto como um pretendente a escritor de divulgação científica e me sinto um pouco decepcionado com a área. Escrever sobre ciência é algo bastante difícil, acreditem. Isso vem do fato de que o método científico busca sempre o questionamento de qualquer verdade, o que é fundamental para o desenvolvimento da ciência. Nessa tentativa humana de entender o mundo, que é conhecida como ciência, não há espaço para dogmas, não há espaço para dúvidas e não há espaço para incertezas. Tudo deve ser questionado e tudo deve ser provado sem qualquer sombra de dúvida ou com a menor dúvida possível. E essa é a dificuldade de escrever ciência para leigos. Em um livro de divulgação não se pode ficar especificando demais um caso ou outro e deve-se tentar generalizar ao máximo suas conclusões para que elas se tornem passíveis de entendimento para o leigo. O problema é que, ao generalizar determinada conclusão, esta se torna ligeiramente incorreta. E é nesse ponto que os críticos vão atacar seu texto, pode apostar.

Há pouco escrevia um texto sobre DNA enquanto pensava sobre isso. Nesse texto, dizia que não se conhece organismo em nosso planeta que não possua essa molécula armazenadora do material genético e responsável pela hereditariedade. Em termos de um leigo isso pode muito bem ser verdade, mas o crítico especialista que for avaliar o texto vai discordar do argumento. Isso vem do fato de que, para alguns especialistas (não todos), um vírus pode ser chamado de “organismo”. E existem vírus que não possuem moléculas de DNA. Os retrovírus, como são conhecidos, constituem uma ampla gama de vírus que não contém molécula de DNA e sim uma molécula de ácido nucléico similar, o RNA. Nesses “organismos”, a molécula de RNA realiza, aproximadamente, o mesmo papel do DNA.

Mas não gostaria de entrar em tanto detalhe em meu texto. Não gostaria de ter que explicar o que é o RNA, não gostaria de explicar sua diferença para o DNA, não gostaria de explicar o conceito de organismo e não gostaria de explicar coisas em um nível excessivamente técnico que fariam com o que o leigo perdesse a paciência de ler o texto. É o que iria acontecer, acredito, se me dispusesse a entrar em tantos detalhes desnecessários para a argumentação principal. A fluidez argumentativa do texto parece ser perdida na mesma proporção com que se ganha em detalhamento técnico. Mas é preciso que seja dito: o texto sem os detalhes está, tecnicamente, incorreto.

O problema de escrever divulgação científica é encontrar o limiar, o denominador comum, entre a tecnicalidade e a precisão da argumentação. E posso apostar que assim mesmo, críticas choverão sobre os pontos onde houve muita ou pouca precisão científica. Não há uma fórmula para corrigir e acertar os limiares, cada indivíduo especialista em uma determinada área, vai sempre encontrar algo que, na sua opinião, deveria ter sido comentado mas não foi. Da mesma forma, cada indivíduo leigo em determinada área vai ter dificuldade em entender demasiado detalhe contido na argumentação.

E por isso acredito que os divulgadores de ciência são, na verdade, heróis. Eles não são normalmente considerados por seus trabalhos científicos e os cientistas de sua área freqüentemente criticam-no por não terem dito isso ou aquilo em seus trabalhos de divulgação. Ou criticam-no por terem generalizado demais determinado argumento, tornando-o incorreto. De outro lado, a imprensa leiga atira farpas criticando o rigor argumentativo e a grande quantidade de detalhes e jargões muitas vezes utilizados. Parece-me realmente difícil conseguir satisfazer os dois lados da moeda.

Não obstante, parece-me que vários já conseguiram fazê-lo, como Sagan, Damásio, Dawkins e Gould. Isso incentiva novos autores a tentarem seguir os passos desses grandes mestres e se tornarem grandes divulgadores de ciência. E a sociedade deveria conseguir formas de incentivá-los ainda mais, já que são poucos aqueles capazes de escrever para os dois públicos. Cadeiras docentes para a compreensão pública da ciência deveriam ser incentivadas pelos governos e pelas agências de financiamento de pesquisas, tanto no Brasil como no exterior. Esperamos ansiosamente que as autoridades responsáveis consigam perceber isso e tomem atitudes de forma a incentivar a difusão de conhecimento das universidades para o mundo. Com isso talvez conseguíssemos começar a combater a ignorância e levar conhecimento e ciência para todo a humanidade, ávida por entender o funcionamento do universo, da vida e da mente.

Domingo, Novembro 05, 2006

A ciência e a morte

"Se fosse anunciada alguma evidência real de vida após a morte, desejaria muito examiná-la; mas teria de ser uma evidência real científica, e não uma simples anedota”
Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônicos
“A morte é como um sono sem sonhos do qual nunca acordamos, nossa consciência suprimida para sempre”
Keith Augustine

A ciência considera a morte como, evidentemente, o fim da vida, ou seja, a completa interrupção de todas as funções vitais em um determinado organismo biológico, seja ele qual for. É considerado um estágio permanente que se acredita que todos os indivíduos eventualmente alcançarão, seja através de causas naturais – como doenças – ou através de causas não naturais, como acidentes ou traumas quaisquer.

É fato, em biologia, que a morte está intrinsecamente associada com o processo de envelhecimento celular. Entretanto, o envelhecimento celular não é um processo universal e existem organismos que não ficam mais velhos de fato. Organismos unicelulares como bactérias, por exemplo, dividem-se por duplicação a cada vinte minutos e, houvesse recursos infinitos disponíveis no meio, continuariam se reproduzindo infinitamente; e jamais morreriam. Acredita-se, inclusive, que o processo de morte celular tenha surgido e se mantido em organismos mais complexos de forma a funcionar como uma proteção contra o câncer. É que as células somáticas (do corpo) que já se dividiram muitas vezes, passam a acumular cada vez mais mutações em seu DNA e, portanto, cada vez mais começam a apresentar uma chance razoável de se tornarem cancerosas. A senescência e a morte celular evitam esse problema. Entretanto, em algumas espécies como as esponjas e os corais, os processos de senescência (envelhecimento) celular são mínimos e em outras, nem podem ser detectados. Tais espécies, todavia, não podem ser consideradas imortais, já que elas eventualmente serão acometidas por doenças ou traumas que acabarão por matá-las. Mas acreditas-se que não morreriam de "velhice", por exemplo, esses organismos.

No caso da morte humana, a ciência não faz qualquer distinção entre esta e a morte de qualquer outro organismo vivo. O ser humano não passa de um primata do velho mundo que de alguma forma teve seu cérebro mais desenvolvido e foi capaz de desenvolver a linguagem, aprender a utilizar ferramentas e descobrir um método eficaz de compreensão do mundo. A ciência não é antropocêntrica, para ela o homem é visto apenas como mais um animal.

Parece claro que, caso existisse algum tipo de vida após a morte onde os mortos pudessem se comunicar com os vivos, experimentos simples poderiam ser desenvolvidos para se provar e estudar a veracidade destas teorias. Alguém, por exemplo, poderia escrever num papel um algarismo de 20 números, guardar em uma gaveta e perguntar a algum suposto espírito qual seria o número anotado. É claro que esta experiência deveria ser feita várias vezes e por pessoas diferentes para que isso se tornasse, um dia, uma “verdade científica”. Entretanto, não há qualquer evidência de que algo místico aconteça com os organismos depois de sua morte e, assim, a ciência permanece cética com relação a tais eventos.

Já se considerarmos a existência de um mundo post mortem completamente desvinculado e não interferente com o mundo em que vivemos, então a ciência também nada é capaz de dizer sobre este pretenso mundo. A ciência trata apenas das chamadas hipóteses falseáveis, ou seja, aquelas com as quais se possam fazer testes e experimentos que as refutem ou não. A ciência restringe seu conhecimento apenas àquelas perguntas às quais ela é capaz responder. A falseabilidade ou refutabilidade de hipóteses é um critério científico básico, desenvolvido por Karl Popper nos anos 30, e de importante categórica na filosofia da ciência. Para que uma determinada asserção como “há vida depois da morte” seja considerada refutável ou falseável, ou seja, para que ela possa ser tratada pela ciência, deve ser possível realizar uma experiência física que tente mostrar essa asserção como falsa (ou, por exclusão, verdadeira). Se não há como fazer uma ligação entre um possível mundo post mortem com o mundo que chamamos de real, através da realização de experimentos que comprovem ou refutem a hipótese inicial, então essa questão sai do âmbito científico e entra para a esfera das crenças e misticismos. É que à ciência, não se pode ligar o verbo “acreditar”. A ciência não acredita, ela conclui.

Keith Augustine completa a citação presente na introdução deste artigo, dizendo que “Não temos nenhuma razão adicional para crer que a consciência humana continue a existir depois da morte tanto quanto a consciência de um búfalo ou outros animais continue a ter experiências depois de morta. Além do mais, temos evidências muito fortes de que a consciência depende do funcionamento do cérebro e, portanto, a vida mental acaba com a morte deste”. Vale comentar que observações neurológicas realizadas em seres humanos provam que, quando determinadas regiões do cérebro são afetadas por doenças, traumas ou remoções cirúrgicas, a consciência do indivíduo é muitas vezes alterada, o que evidencia uma relação direta entre biologia e consciência. Tais observações reforçam a idéia de que nossa consciência está diretamente ligada à nossa biologia e que a morte de uma implica diretamente na morte da outra.

Outras teorias em biologia consideram que os organismos consistam em máquinas de sobrevivência para seus genes. Assim, seríamos nós um conjunto de variantes gênicas (alelos) específicas entre todas as possíveis formas de variação de cada gene existente em nossa espécie. Se considerarmos esse ponto de vista, nossa vida pode ser vista como “a vida de nossos genes” e, sabendo que nossos familiares carregam grande parte de seu genoma similar ao nosso, ao morrermos estaremos ainda um pouco vivos, dentro de seus organismos. Nossos filhos carregam 50% do nosso genoma somado a mais 50% do genoma de nosso parceiro e, assim, de alguma forma eles podem ser vistos como uma extensão viva de nós mesmos.

Poderia se considerar ainda que o fato de ser enterrado e ter seu corpo digerido por microorganismos seja também uma forma de se permanecer vivo, sendo que as moléculas que antes compunham seu corpo biológico passam a fazer parte de outros organismos vivos, a saber, aqueles que o digeriram. Assim, recicla-se o próprio corpo e entra-se novamente no ciclo da matéria orgânica.

A ciência encara a morte, portanto, como o fim das funções vitais de um organismo. Embora existam formas de se pensar vivo ainda depois da morte, mesmo usando a ciência, seja através do compartilhamento de alelos gênicos com parentes ou através da “sobrevivência” de moléculas de nosso corpo nos organismos que o digerirão, tais visões estão completamente desvinculadas da sobrevivência de nossa consciência. A neurologia mostra que a consciência é um fruto claro de nossas complexas capacidades cerebrais e que ela esta está diretamente ligada às nossas funções biológicas vitais. Portanto, para a ciência, a consciência de um organismo cessa no exato instante de sua morte cerebral. Além disso, vale lembrar que a ciência trata apenas das hipóteses falseáveis e, assim, questionamentos que não possam ser testados empiricamente ficam de fora da esfera do científico. Assim, como a ciência não é capaz de responder a determinadas perguntas, as pessoas tendem a procurar as respostas que desejam na esfera do misticismo e das religiões. Por não terem qualquer relação direta com a realidade ou necessitarem de se mostrar verdadeiros, esses empreendimentos místicos freqüentemente conseguem adeptos que não são capazes de suportar, psicologicamente, a falta de sentido através da qual a ciência enxerga o mundo.

Para saber mais:

A relação entre a teoria da evolução e as ciências sociais

Estudos em psicologia evolutiva I

As teorias em biologia, química e física precisam ser compatíveis entre si e devem ser avaliadas em níveis de compatibilidade multidisciplinar. As teorias em biologia precisam ser coerentes entre si e, apesar de irredutíveis a explicações químicas, elas devem ser consistentes com a química conhecida. O mesmo vale pra química. Apesar de ser irredutível à física, ela precisa ser consistente com essa ciência. Não é possível que as ciências se contradigam e estejam, ambas, corretas. Cada nível de análises adiciona propriedades que são irredutíveis à ciência de nível inferior, assim, as teorias biológicas não devem e não podem se constituir de teorias psicológicas da mesma forma que as teorias psicológicas não podem apresentar teorias para a formação da cultura. Cada nível pode apenas prover fundamento para o nível posterior na hierarquia.

Com relação à interação entre natureza e cultura costuma-se tentar separar qual a parcela de um determinado comportamento é instintiva e qual é social ou aprendida. Um fato interessante é que os pesquisadores em ambas as áreas estão descobrindo que as rígidas fronteiras entre natural e cultural na verdade não existem. Ao invés de separadas e aditivas, natureza e cultura interagem de forma intercalada, inseparável e ricamente interativa (multiplicativa). Considere, por exemplo, um experimento teórico realizado com dois indivíduos que diferem em suas aptidões musicais, Marcelo e Mozart. Marcelo tem pouca aptidão musical, enquanto Mozart é potencialmente um gênio. Se ambos vivessem num ambiente onde houvesse pouca exposição à música, é provável que Mozart mostrasse um pouco mais de talento do que Marcelo em suas habilidades musicais. Entretanto se ambos nascessem em um ambiente contendo uma rica variedade de músicas, a baixa capacidade musical de Marcelo seria óbvia quando comparada à genialidade de Mozart. A aptidão e o meio ambiente devem interagir! O potencial inato e a experiência ambiental interagem para produzir as habilidades comportamentais. Ao invés de serem plenamente aditivos, os efeitos do meio ambiente deverão variar dependendo do nível da aptidão inata dos indivíduos. Mais uma vez, a tentativa de explicar o comportamento em termos de porcentagens atribuídas à natureza ou à cultura devem ser infrutíferas e enganosas. Ao invés de produzirem efeitos separados, natureza e cultura, cada uma influenciando e sendo influenciada pela outra, ambas devem influir no desenvolvimento de um determinado organismo durante seu tempo de vida. Através das gerações, a natureza biológica humana influencia a natureza social de nossa espécie. E, em alguns aspectos, o ambiente social humano também influencia nossa natureza biológica.

Todas as culturas humanas são fortemente influenciadas, ligadas, limitadas e incorporam nossa natureza animal. Toda característica cultural tem como ponto de partida nossa característica biológica. Imagine, por exemplo, como seria a sociedade humana se algumas das seguintes características comuns aos mamíferos fossem diferentes:

  • Suponha que todas as fêmeas tivessem um ciclo sexual anual. Isso faria com que tanto os machos quanto as fêmeas se interessassem por relações sexuais apenas durante algumas semanas do ano, durante o verão. As relações sociais entre os sexos deveriam ser bem diferentes, o que refletiria na composição da sociedade;
  • Ou imagine o impacto na estrutura familiar se as crianças humanas já pudessem se cuidar sozinhas e viver independentemente com um ano de idade;
  • Ou suponha que as mulheres humanas dessem luz a seis a dez filhos em cada gravidez;
  • Ou considere as conseqüências produzidas se os machos humanos levassem uma existência solitária, longe de outros machos ou fêmeas, exceto no período de reprodução.


Se qualquer uma das hipóteses acima fosse verdadeira, toda a psicologia humana e as interações sociais, em todas as culturas, seriam profundamente diferentes das que conhecemos. É claro que as culturas humanas são variáveis, mas todas elas possuem características geradas para considerar todos os requerimentos biológicos de nossa espécie. Em muitos casos é possível observar fatores biológicos, psicológicos e culturais atuando em conjunto para produzir respostas similares. Um exemplo é o incesto, que aumenta a endogamia, diminuindo a variabilidade de uma população e levando a efeitos genéticos deletérios. Existe uma tendência psicológica, conhecida como efeito Westermarck, onde os adultos evitam escolher como parceiros sexuais indivíduos com os quais eles viveram suas infâncias. Esse efeito ilustra como a experiência social (companhia quando criança) produz um mecanismo psicológico (nível de interesse sexual) que é compatível com uma adaptação biológica (diminuição da endogamia). Os fatores em cada um dos níveis da análise operam de forma conjunta de forma a realizar funções mutuamente compatíveis.

É interessante notar que algumas pesquisas mostram que nossa natureza social também afeta profundamente nossa natureza biológica. Por exemplo, trabalhos na área de neurociências mostram que a plasticidade neuronal tem um papel importante em modelar nossas sinapses de acordo com a experiência, inclusive social. Essa plasticidade inclui a formação de novas sinapses e a desativação de outras, reforçando ainda a capacidade de algumas em produzir impulsos nervosos. Através de sua maior utilização, algumas conexões podem se tornar circuitos permanentes. Por exemplo, um jovem que imita as relações sociais de adultos, promove um desenvolvimento de conexões nervosas apropriadas que podem influenciar futuramente a performance de seu próprio comportamento social adulto.

Existe um certo medo de que a abordagem evolutiva que é dada à psicologia enfatize a natureza e minimize as experiências sociais na explicação do comportamento humano. Esses medos possuem raízes históricas. Tentativas recentes de “biologizar” o comportamento humano produziram movimentos de eugenia e tentativas de explicar as diferenças entre raças através de termos genéticos, o que não se tem comprovado através de experimentos recentes.

Muitas das pessoas que são contra as explicações biológicas de comportamentos sociais acreditam que os estudiosos desse assunto pensam que a “biologia é o destino”. Na verdade não existe nenhum determinismo biológico, o que se espera é tentar descobrir como e porquê determinado comportamento surgiu e se manteve.

Um fato interessante é que a evolução pode ser apresentada como uma teoria comportamental, afinal os genes não são os materiais diretos onde atua a seleção e sim o organismo e, portanto, seus comportamentos. Apenas os indivíduos que se comportaram no passado de forma a promover sua sobrevivência e reprodução e que podem ser nossos ancestrais. Comportamentos e ambientes selecionam genes que ajudam os comportamentos a serem mantidos ao longo das gerações. Os mecanismos psicológicos que produzem uma tendência comportamental devem existir ao menos em alguma forma rudimentar de forma que possam ser selecionados em nível biológico.

A sociobiologia foi fundada como tendo o objetivo de explicar o comportamento social através de mecanismos biológicos e considera-se que sua idéia é bastante reducionista. Já a psicologia evolucionista considera que os mecanismos psicológicos é que são centrais ao entendimento do comportamento humano, sendo que tanto a biologia quanto a experiência têm papeis importantes no desenvolvimento desses mecanismos psicológicos que desencadeiam o comportamento. Tais comportamentos devem ser consistentes com as funções biológicas mas não idênticos nem redutíveis a elas.

Um erro comum sobre a psicologia evolucionista é dizer que ela postula que os comportamentos são geneticamente determinados, sendo imunes à influências ambientais. Na verdade os psicólogos evolucionistas procuram descobrir, descrever e entender a natureza dos mecanismos psicológicos que produzem o comportamento de interesse. Mecanismos psicológicos são processos de dentro ou de fora do organismo que são utilizados como entrada para gerar uma informação interna ou externa ao organismo que ou regule sua atividade fisiológica, provendo informação para outros mecanismos psicológicos ou que produza algum comportamento. Uma abordagem evolutiva adiciona que o mecanismo deve ter contribuído para a solução de um problema especifico relacionado à sobrevivência ou reprodução ao longo da história evolutiva humana. É uma análise funcional e adaptativa. O gosto pela atividade sexual e o sabor agradável de uma fruta são exemplos de mecanismos psicológicos.

Referências bibliográficas
1. Hass RG et al. The relationship between the theory of evolution and social sciences, particularly psychology. Annals of the New York Academy of Sciences 907:1-20, 2000.
2. Crawford C. Evolutionary psychology: counting babies or studying information-processing mechanisms. Annals of the New York Academy of Sciences 907:21-38, 2000.

Quarta-feira, Abril 19, 2006

O ceticismo e o conhecimento de cada um


Os cientistas são, muitas vezes, céticos com relação à grande maioria dos eventos místicos, paranormais e ufológicos que parecem acontecer à sua volta. Entretanto, devemos considerar que os cientistas são indivíduos que conhecem a natureza do universo melhor do que qualquer outro profissional na sociedade humana. Afinal, essa é sua profissão!

No âmbito de nossa sociedade, cada pessoa se especializa em uma determinada área de seu interesse e se torna cética com relação à sua área de conhecimento (excetuando-se aqui religiosos e místicos, que aceitam certas premissas dogmáticas sem uma gota de ceticismo). Considerando que é impossível que nos especializemos em todas as áreas do conhecimento humano, muitas vezes tendemos a aceitar as opiniões de especialistas. Apesar de tudo, quando o assunto envolve crenças e convicções pessoais, é difícil aceitar o que os especialistas dizem (por mais bem colocado e lógico que seja) e é por isso que nossa sociedade vive tão cheia dos mais absurdos e diferentes mitos.

Experimente, um dia, chegar pra uma dona de casa e dizer que consegue assar um bolo apenas com o calor de suas mãos, que consegue fazê-lo crescer apenas com a força do pensamento ou que utilizando cem vezes menos ingredientes você faz um bolo do mesmo tamanho. Experimente dizer a um engenheiro civil que você é capaz de construir um edifício de vinte andares utilizando apenas um pilar com dois milímetros de diâmetro. Experimente falar a um cientista da computação que você conseguiu fazer com que seu disco rígido de 540Mb conseguisse armazenar 200Gb. Experimente surpreender um advogado dizendo que você conseguiu criar um sistema de leis perfeito, onde nunca haveria erros de sentença e todos pagariam de forma justa e adequada por seus atos ilegais. Diga a um publicitário que você bolou uma propaganda que fizesse qualquer um sair correndo para comprar seu produto.

Sou capaz de apostar dez para um como, em todos os casos citados no parágrafo anterior, o profissional, no mínimo, iria duvidar de você. (É claro que algumas vezes ele poderia achar que você é louco e concordar: “– Sim, sim, parece interessante...”) Mas é claro que ele iria querer saber como você conseguiu tal façanha. Todos são céticos quando conhecem o objeto de seu estudo! A dona de casa, por mais humilde que seja, nunca vai acreditar que você consegue fazer um bolo do mesmo tamanho utilizando apenas um centésimo de cada ingrediente. É importante notar que talvez, num futuro distante, seja possível fazer esse bolo com tão poucos ingredientes, mas não vale a pena perder muito tempo com essa pessoa que diz fazê-lo hoje, a não ser que ela explique de forma lógica e mostre passo a passo seus procedimentos.

No caso do cientista pode-se dizer que não vale a pena gastar muita saliva discutindo com uma pessoa que diz que pode haver vida inteligente no Sol, como aconteceu comigo há bem pouco tempo. Toda a vida que já observamos, até hoje, é a que existe na Terra, onde todos os organismos são formados por informações codificadas em cadeias de moléculas que formam os ácidos nucléicos (RNA ou DNA). Sabemos que o DNA se desestabiliza a cerca de 100ºC, quando acontece a quebra das ligações de hidrogênio e a abertura da dupla fita, descaracterizando a forma de dupla hélice da molécula. Numa temperatura um pouco maior acontece a ruptura das ligações fosfodiéster que ligam os nucleotídeos entre si, cortando o DNA em minúsculos pedacinhos que são incapazes de constituir vida, inteligente ou não, da forma como conhecemos. Sei que a temperatura na superfície do Sol é muito maior do que míseras centenas de graus Celsius (e, no seu interior, é ainda maior) e, portanto, estou convicto que não podemos encontrar vida inteligente no Sol. É claro, e esse é um dos pontos-chave da questão, que pode existir vida no Sol, baseada em outras cadeias químicas ou em coisas completamente inusitadas para nós no dia de hoje. A minha pergunta para essa pessoa é similar àquela feita pela dona de casa ao indivíduo que diz fazer o bolo com um centésimo dos ingredientes: explique-me, através de um raciocínio lógico e mostrando passo a passo, como é que pode existir vida inteligente no Sol? Como a pessoa não é capaz de explicar e nem de apresentar provas convincentes, mantenho-me cético com relação a esse fato, assim como a dona de casa manteve-se cética com relação ao bolo econômico. Algum dia, num futuro sabe-se lá quão distante, pode-se chegar a fazer tal bolo ou mostrar a existência de tal vida. Até lá, a dona de casa e eu nos manteremos céticos com relação a cada um dos fatos.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a grande parte dos fenômenos místicos, parapsicológicos ou religiosos. Enquanto ninguém mostrar evidências ou explicar detalhadamente através de raciocínios lógicos que um determinado evento (seja uma cura através das mãos, uma torção de talheres com a força da mente, uma abdução por alienígenas, a existência de Deus ou um bolo com um centésimo dos ingredientes) realmente existe ou pode acontecer, temos o direito e o dever de permanecermos céticos em relação a ele. Do contrário seríamos obrigados a acreditar em qualquer coisa que qualquer um inventasse, como o fato de sermos controlados por uma mente em forma de ostra. Se não há evidências de que somos controlados por uma mente em forma de ostra ou que existe vida após a morte, não temos por que acreditar em uma ou outra coisa, por mais que um milhão de pessoas nos digam que já viram em seus sonhos uma mente em forma de ostra dizendo-lhes o que fazer.

Somente com uma maior educação científica e cética a população conseguirá se desvencilhar de crenças e misticismos absurdos, sem quaisquer evidências físicas e criados a partir de lógicas falhas. Com uma legião de céticos espalhados pelas mais diversas áreas do conhecimento, da culinária à biologia molecular, poderá chegar um dia em que será muito mais difícil enganar até mesmo a mais simples das pessoas. Mas é claro que toda a minha argumentação pode estar errada ou incompleta. Mostre-me o porquê e poderei, se utilizar bons argumentos explicar passo a passo, concordar com você.

Ancestralidade comum e o Tribalismo


Recentemente, três ícones da música brasileira se reuniram e criaram um movimento, ou um anti-movimento como dizem em alguma de suas músicas: o Tribalismo. Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes produziram música brasileira e arte da melhor qualidade. Colaboradores de longa data, os três foram capazes de produzir o CD Tribalistas em tempo recorde e vêm fazendo grande sucesso nas rádios. Gostei particularmente da faixa número 13 do CD, que escuto nesse momento, intitulada exatamente “Tribalismo”. A letra e a melodia são bastante agradáveis e a filosofia tribalista é bastante interessante, moderna e inteligente. Foi somente depois da terceira ou quarta vez que escutei a música que percebi um erro conceitual na letra, motivo pelo qual escrevo esse texto.

“Os tribalistas já não querem ter razão
não querem ter certeza não querem ter juízo nem religião”


Bem, se os tribalistas não querem ter razão isso facilita a abordagem corretiva que pretendo levar ao longo desse texto. Realmente eles não têm razão em uma parte da letra posterior a essa frase inicial. O erro encontrado é bastante comum; um erro evolutivo que, como geneticista, tenho a obrigação e o prazer de esclarecer. Vejam a frase a seguir:

“Um dia já fui chimpanzé
agora eu ando com o pé
Dois homens e uma mulher
Arnaldo, Carlinhos e Zé”


Talvez o leitor acredite que o erro encontre-se nos nomes dos tribalistas. Definitivamente, não me parece que “Arnaldo, Carlinhos e Zé” sejam realmente “dois homens e uma mulher”. Isso me incomodou à primeira vista. Pensei que os tribalistas tivessem alterado o nome do componente feminino do grupo justamente para fazer uma rima que tornasse a música mais agradável. Afinal uma frase “Arnaldo, Carlinhos e Marisa” não cairia muito bem junto à melodia.

Foi pesquisando na internet para escrever o presente texto que encontrei a informação de que Zé parece ser realmente um apelido da Marisa Monte, algo como um diminutivo de Marisete. Zé. Seja qual for o motivo: verdadeiro apelido ou verdadeira melodia, não é isso que gostaria de discutir aqui.

O principal motivo pelo qual estou aqui é tentar explicar melhor a frase “Um dia já fui chimpanzé”. Primeiramente gostaria de parabenizar os tribalistas por acrescentarem uma frase mostrando o pensamento evolutivo em uma de suas músicas. É realmente importante tentar educar através da música. Infelizmente nossos ídolos musicais foram infelizes exatamente nessa frase.

A teoria da evolução por seleção natural foi proposta por Charles Darwin em 1859 e permanece basicamente a mesma vigente até hoje. Novas descobertas foram feitas e acrescentaram novas informações que corroboraram e tornaram ainda mais confiáveis as idéias evolutivas propostas pelo inglês.

A evolução mostra que todos os organismos existentes hoje em nosso planeta derivam de um único ancestral comum. Ao compararmos dois organismos entre si, sejam eles animais, vegetais ou microorganismos, poderemos supor a existência de um ser que tenha sido um ancestral comum entre eles. Ancestrais comuns podem ser mais recentes ou mais antigos, dependendo das espécies que se compara. O ancestral comum entre humanos e chimpanzés é mais recente do que o ancestral comum entre humanos e baleias, ou entre humanos e cachorros. E isso significa que os humanos são “parentes mais próximos” dos chimpanzés do que das baleias ou dos cães. Entretanto isso não significa que algum dia tenhamos sido chimpanzés, baleias ou cachorros. E não fomos. Veja a figura abaixo:




Até um certo momento, a história evolutiva de homens e chimpanzés era a mesma (ponto amarelo). A partir de um determinado momento, entretanto, uma população de uma espécie ancestral, que não era nem chimpanzé, nem humana, separou-se. Por algum motivo, os membros dessa população ancestral foram divididos. Os membros de uma subpopulação A dessa população ancestral seguiram pra um lado e outros de uma subpopulação B seguiram para outro. Desse momento em diante a população ancestral nunca mais foi a mesma.

Os membros de A foram para um determinado ambiente que exigia determinadas características específicas e os membros de B foram para outro ambiente que exigia outras características adaptativas. Mutações genéticas aleatórias aconteceram em membros da subpopulação A e da subpopulação B e aquelas que não eram ruins ou deletérias foram escolhidas diferentemente por meio da seleção natural para serem mantidas em cada uma das populações. Os traços vermelhos na figura representam as mutações que aconteceram na subpopulação que deu origem aos chimpanzés e os traços verdes representam aquelas que aconteceram na subpopulação que deu origem à linhagem humana.

Depois de milhares de anos acumulando mutações diferentes que foram selecionadas diferentemente pelo ambiente em questão, a população ancestral produziu espécies diferentes, que não eram mais capazes de se reproduzir dando origem a prole fértil.

Dessa forma podemos entender que, ao contrário do que dizem os tribalistas, nós humanos nunca fomos chimpanzés. Apenas dividimos com eles um ancestral comum recente. Vale dizer ainda que nós nunca “fomos” nenhuma das espécies existentes em nosso planeta hoje e sim temos ancestrais comuns com todas elas. E esses ancestrais se modificaram em maior ou menor quantidade para gerar a nossa própria espécie ou qualquer outra que se deseje analisar.

Isso significa também que não há como alterar a letra da música para torná-la correta. O início da frase “Um dia já fui ...” não permite que coloquemos o nome de nenhuma outra espécie existente hoje que permita tornar a música cientificamente correta. E imagino que os tribalistas não estejam também muito interessados nisso...

Talvez, entretanto, pudéssemos acrescentar alguma característica no lugar de “chimpanzé” para tentarmos deixar a música correta, algo como unicelulares. Se a frase fosse “Um dia já fui unicelular”, ela estaria cientificamente correta, mas atrapalharia a melodia. Deixo então para você, leitor, a tarefa de encontrar alguma característica que caiba exatamente no lugar de “chimpanzé” e não atrapalhe a melodia. Talvez você possa um dia encontrar com algum dos tribalistas e sugerir uma modificação na letra. Boa sorte!

A escolha do Ateísmo


Ser ateu é provocar grande polêmica, mesmo nos dias de hoje. Se considerarmos que toda a crença em entidades não fisicamente observáveis exige uma aceitação não racional de sua existência (fé), acredito que se deva tomar uma opção coerente com relação à aceitação ou não-aceitação de todas elas. Esse argumento chave tentará, seguindo premissas lógicas, mostrar porque a opção do ateísmo e do ceticismo é mais lógica do que a fé ou do que a dúvida.

Antes de entrar no argumento principal gostaria de comentar que ninguém realmente se preocupa se uma pessoa é católica, budista, espírita ou evangélica. Ter uma religião, qualquer que seja, parece ser um comportamento bem aceito na sociedade de hoje. Entretanto, a falta de religião é vista como um radicalismo extremo, algo impensado e sem razão, afinal, como uma pessoa pode viver sem ter fé? O paradoxo é que é a fé que exige a falta de razão de um indivíduo.

A fé é a crença máxima que uma pessoa pode ter sem que, para isso, necessite de qualquer prova ou fundamento. Eu posso ter fé que Adão e Eva existiram ou que existe o coelhinho da páscoa, papai-noel ou Deus. Em que esses exemplos são diferentes? No ponto de vista de um cético, nada. Afinal várias pessoas afirmam já terem visto papai-noel ou Deus, entretanto não temos qualquer prova física e irrefutável da existência (ou não-existência) de nenhum deles. Acho que a principal queixa contra o ateu é o fato de que os crentes os vêem como uma pessoa maligna e sem princípios, esquecendo-se que é possível ter uma moral e uma ética sem ter uma religião.

Observando a história da humanidade podemos ver que muitos fenômenos naturais, antes de serem explicados cientificamente, eram tidos como obras de Deus. Em tempos mais remotos, os homens rezavam para que o sol nascesse no dia seguinte, índios dançavam para os Deuses da chuva e se amedrontavam com a fúria deles durante eclipses e outros fenômenos naturais. De fato, se você realizar bastante a dança da chuva, com certeza irá chover algum dia (mas será mais fácil se você o fizer no verão).

Diversos mitos também foram aos poucos caindo por terra, logo que ficavam ridículos e completamente fora da realidade de seus tempos. Quem, nos dias de hoje, acreditaria realmente em uma pessoa que viu um duende, um minotauro, um elfo ou a fada sininho? A única coisa que as pessoas hoje em dia podem acreditar ou ver, para ao menos serem levadas em consideração, são espíritos e alienígenas (ou OVNIs). Mas há uma boa diferença entre esses dois seres. Os espíritos se enquadram no mesmo grupo onde já estão os duendes, unicórnios, dragões, papai-noel e Deus, ou seja, não se pode provar que existam ou que não existam. Já os alienígenas são realmente mais bem cotados, pois podem existir fisicamente e, portanto, não exigem que formulemos novas leis e conceitos científicos ou psicológicos para explicar sua existência. Entretanto parece que a grande maioria dos relatos sobre OVNIs e alienígenas são bastante incompletos e inconclusivos, o que os leva, nesse momento, para dentro do mesmo grupo anterior, constituído daqueles seres nos quais não se prova, ainda, a existência ou inexistência.

Portanto considero que a escolha do ateísmo é, por si só, uma escolha coerente. Por que acreditar em Deus, mas não acreditar em elfos, duendes, fadas, vampiros, no capeta ou qualquer outro ser que eu acabar de inventar? Para todos eles não há nada que comprove ou não suas existências. Acredito que uma pessoa com um mínimo de coerência vai concordar que existem apenas duas opções racionais nesse caso: ou acredita-se em tudo pela fé, ou duvida-se de tudo até que alguém prove o contrário.

Portanto chegamos agora a um ponto chave da questão do ateísmo. Da mesma forma que não se pode provar que Deus existe, não se pode provar, por outro lado, que Ele não exista. Devemos abrir um parêntese nesse momento para discutir a dificuldade que existe em provar uma negação. Poderíamos facilmente provar que dragões existem se, para isso, encontrássemos apenas um exemplar em algum lugar e pudéssemos examiná-lo de forma completa, certificando não se tratar de uma fraude. O que é realmente impossível provarmos é a não existência de dragões, já que eles poderiam existir em qualquer lugar ainda não explorado, seja aqui mesmo na Terra, nas luas de Júpiter ou Saturno, ou em algum lugar fora do sistema solar. A questão intrigante que se observa nesse fato é que os crentes sempre exigem que o ateu lhes dê uma prova da inexistência de Deus, sendo que, o mais simples, seria provar a sua existência.

Mesmo considerando que seria mais fácil provar a existência do que a inexistência não temos, no momento, qualquer prova de nenhuma das duas e, portanto, poderíamos pensar que a opção ideal e mais inteligente fosse, simplesmente, não ser nem ateu, nem crente, poderíamos ficar em cima do muro, não acreditando nem desacreditando. Essa filosofia de vida tem um nome, é a agnose. O agnosticismo está relacionado à negação das crenças e o agnóstico é um indivíduo que está definitivamente em cima do muro e não toma qualquer partido de uma ou outra causa.

Entretanto gostaria de argumentar que o ateísmo é realmente uma opção mais racional do que o agnosticismo. O agnóstico está sim em cima do muro com relação à existência de Deus, mas, se for coerente, deve também estar em cima do muro com relação a todos os outros seres místicos dos quais não se prova a existência ou não, incluindo o papai-noel.

É importante notar que, quando digo ateísmo, não estou me referindo ao ateísmo dogmático, aquele em que o indivíduo nega a existência de Deus de forma categórica e radical (se igualando, de forma contrária, aos teístas). Defendo o ateísmo não-dogmático, que duvida da existência de Deus até que se encontre alguma prova irrefutável desta. Se algum dia me apresentarem de uma prova irrefutável de que Deus existe desistirei de meu ateísmo e me tornarei crente.

Acho que o mais fundamental com relação às crenças é o fato de se tomar uma atitude coerente com relação a todas elas, pois, na verdade, elas se baseiam no mesmo princípio. Portanto, parece-me que a opção mais coerente é manter-se cético com relação a qualquer tipo de crença não comprovada, até que essa crença seja de fato comprovada. Afinal, se um dia eu for capaz de ver um velhinho voando num trenó, puxado por renas, vestido de vermelho, cheio de presentes e falando “Hohoho”, minha crença mudará automaticamente e acreditarei na existência do papai-noel.

Origem da Vida


A origem da vida sempre foi e sempre será um dos principais temas que afligem a humanidade, assim como a origem do universo. Com relação a essa última parece que ainda estamos longe de saber, se é que algum dia será possível, o que teria acontecido antes do big bang. De forma oposta, estamos cada vez mais próximos de explicar como a vida poderia ter surgido através de reações químicas espontâneas. Várias teorias têm sido propostas e, a cada dia que passa, o caminho de volta às nossas origens químicas parece ficar mais claro.

Ainda não se sabe se a vida na Terra realmente teria surgido aqui ou em outro lugar do espaço. A teoria da pan-espermia prega que a vida teria surgido em outras partes do universo e trazida para cá através de meteoritos, cometas ou mesmo espaçonaves. Os cientistas que defendem esta teoria argumentam que não houve tempo hábil na Terra para que a vida pudesse ter se originado. Entretanto, essa teoria não resolve o problema do surgimento da vida, apenas desloca-o para outro lugar e ainda cria novas perguntas sobre onde então a vida teria surgido, como ela teria chegado aqui, e em que forma ela teria viajado para chegar aqui.

Deve-se notar, apesar de tudo, que uma boa parte dos químicos pré-bióticos alegam que a vida poderia sim ter sido originada aqui mesmo no nosso planeta. Têm sido propostas novas possibilidades de composições gasosas para a atmosfera primitiva, ao invés daquela amplamente difundida de que a atmosfera era composta de metano (CH4), amônia (NH3), gás carbônico e vapor d’água. Na nova atmosfera proposta, o hidrogênio não estaria ligado ao carbono e sim ao enxofre, na forma de gás sulfídrico (H2S), o nitrogênio estaria na mesma forma que é encontrado hoje na atmosfera (N2) e o gás carbônico e o vapor d’água comporiam os elementos básicos da “nova” atmosfera primitiva. Boas evidências têm sido encontradas para corroborar esse nova teoria.

Mas, independente de qual era a composição de gases da atmosfera, têm sido demonstrado que deve ter ocorrido o acúmulo de moléculas orgânicas, que teriam sido formadas espontaneamente, nos mares primitivos. Foram encontradas quantidades significativas de aminoácidos e de certas bases nitrogenadas, principalmente a adenina, em experimentos feitos que simulavam as condições da Terra primitiva.

Portanto havia, nos mares primitivos, algumas das bases para a construção das moléculas de ácidos nucleicos e proteínas existentes hoje. Entretanto, hoje em dia, as proteínas só existem se forem codificadas por ácidos nucléicos, e os ácidos nucleicos só se replicam com a catálise pelas proteínas. O que teria surgido primeiro então: um tipo de ácido nucleico ou uma proteína? Essa pergunta tem dividido os pesquisadores e a resposta ainda não foi encontrada.

Os genecêntricos acreditam que uma molécula similar a um RNA surgiu primeiro e essa molécula tinha a capacidade de catalisar a sua própria replicação, já que foram encontrados vários exemplos de RNAs apresentando atividade catalítica. Os proteinocêntricos acreditam que as proteínas teriam surgido primeiro através da ligação de aminoácidos catalisada, por exemplo, por moléculas de tio-ésteres. Outros pesquisadores acreditam na existência de uma chamado ácido nucleico peptídico ou PNA, onde a espinha dorsal do ácido nucleico não seria formada por um açucar e um grupo fosfato e sim por aminoácidos!

A teoria genecêntrica tem conseguido bastantes seguidores e já mostrou que pode estar correta, sendo que vários evidências indiretas já foram encontradas do fato de ter existido realmente o chamado mundo do RNA. Segundo essa teoria, moléculas auto-replicantes teriam surgido espontaneamente através de reações químicas. Entretanto, a replicação dessas moléculas não era perfeita e elas iam adquirindo erros de cópia ao longo de seguidas replicações. A grande maioria desses erros tornava as moléculas mais instáveis e fazia com que fossem degradadas mais rapidamente do que o normal. Entretanto, alguns erros faziam-nas mais estáveis ou proporcionavam uma menor taxa de erros em sua duplicação, ou promoviam uma replicação mais rápida.

Dessa forma, teria havido uma competição entre elas pela disponibilidade dos elementos que as formavam no meio (seus blocos químicos de construção), uma verdadeira seleção natural de moléculas. Assim, aquelas que se replicavam mais rapidamente, eram mais estáveis e apresentavam maior fidelidade de cópia, logo teriam conseguido aumentar seu número no pool de moléculas. Novas sofisticações poderiam também surgir, por exemplo, uma molécula que conseguisse destruir outra para utilizar seus blocos de construção em sua própria replicação, teria uma vantagem seletiva e conseguiria, ao longo de gerações, aumentar seu número no pool de moléculas. Posteriormente, moléculas que conseguissem se defender das outras, por exemplo, encapsulando-se dentro de uma membrana lipídica, teriam também uma maior chance de aumentar seu número após algumas gerações.

Muito tem sido feito para tentar criar explicações melhores e fechar alguns buracos na teoria que mostrariam de forma inequívoca como um simples RNA replicador teria conseguido formar, por exemplo, uma célula simples. Os estudos nessa área têm avançado e esperamos que, um dia, consigamos montar uma teoria robusta que explique melhor como a vida teria surgido a partir de reações químicas espontâneas. Enquanto a teoria não vem podemos nos divertir escutando os mais diferentes e absurdos mitos sobre o surgimento da vida.

O criacionismo científico e o registro fóssil


O registro fóssil e seu padrão de deposição é uma das principais evidências de que a evolução realmente aconteceu. Ao longo de diferentes camadas geológicas é possível observar a ordem na qual os animais foram aparecendo e se extinguindo em nosso planeta. Entretanto os criacionistas tentam explicar o padrão do registro fóssil através diferenças na deposição dos animais após o dilúvio, onde os animais não salvos por Noé teriam perecido. Nesse texto tentaremos ver a profundidade e a validade desse argumento dentre outros fornecidos pelos criacionistas científicos.

Segundo os criacionistas, sejam eles científicos ou não, o processo de criação de novas espécies nunca ocorre, já que todas foram criadas por Deus durante os sete dias da criação. Se considerarmos tal argumento como verdade esperaríamos encontrar, no registro fóssil, evidências de todos os animais em todas as camadas geológicas, afinal eles têm coexistido juntos desde os tempos mais remotos de nosso planeta. Há centenas de dinossauros fósseis e, entretanto, nenhum foi encontrado junto a um fóssil humano ou de alguma ave. Além disso, dois dos mais comuns fósseis encontrados são os trilobitas e os peixes ósseos, sendo que ambos viveram nos oceanos. Se os criacionistas estivessem corretos seria de se esperar que encontrássemos, pelo menos alguma vez, fósseis dessas duas formas de vida juntos. Entretanto não é o que ocorre, os trilobitas parecem ter perecido cerca de cem mil anos antes do primeiro peixe ósseo ser encontrado no registro fóssil. De forma ainda mais drástica, o último dinossauro fóssil aparece na camada correspondente a 60 milhões de anos, enquanto o primeiro humano aparece, pela primeira vez, na camada próxima a 5 milhões de anos. Dinossauros e humanos parecem ter se encontrado apenas recentemente, nos filmes de Spielberg.

Bem, a pergunta que então nos vem à mente é: De que forma então os criacionistas explicam o registro fóssil? Primeiramente é bom lembrar que os criacionistas assumem que todos os organismos foram criados juntos há cerca de seis mil anos atrás. Assim, continuaram sua existência até que o grande dilúvio matou todos aqueles que não estavam na arca de Noé. De acordo com essa versão, os corpos resultantes do dilúvio foram depositados de acordo com sua densidade e a capacidade de seus corpos de serem levantados pela água. Assim os corpos mais densos e fracos teriam sido depositados primeiramente, enquanto os mais leves e resistentes ficariam por último.

Entretanto tal hipótese, encontrada no livro “The Gênesis Flood” não é corroborada por nenhum dado experimental. Cientistas que foram tentar comprovar tal hipótese, apenas encontraram mais evidências da evolução. E mesmo alguns naturalistas protestantes, como Cuvier, já teriam abandonado essa idéia mais de um século atrás. Como apontou o paleontologista Kenneth Miller, apenas observando o registro fóssil dos mamíferos já é possível mostrar como essa teoria é inconsistente. Dentro dessa classe de animais pode-se observar várias espécies que variam enormemente em suas propriedades hidrodinâmicas, nichos ecológicos, mobilidade e força. Apesar disso, tanto as baleias oceânicas, macacos que trepam em árvores, ratos campestres e morcegos voadores aparecem tarde no registro fóssil. E, além disso, eles começaram a aparecem em épocas parecidas e apenas após o aparecimento dos répteis com características de mamíferos, e não antes.

Além disso, uma criação simultânea de todos os organismos vivos exige que o registro fóssil apresente, de uma hora para outra, uma explosão repentina de vida. E é isso que os criacionistas dizem que aconteceu. Segundo eles nenhum fóssil multicelular teria sido encontrado em rochas do pré-cambriano e apenas no período cambriano é que os animais começariam a ser encontrados. Entretanto esse argumento é falso, já foram encontrados, na camada de rochas pré-cambriana, fósseis de algas cianofíceas, jellyfishes, celenterados e até mesmo formas de transição entre anelídeos e artrópodos. Esses fósseis são realmente mais difíceis de serem encontrados, principalmente devido à fragilidade e dificuldade de preservação dos corpos de invertebrados.

Até 1987 os criacionistas gostavam de contar histórias sobre o leito do rio Palury, nos Estados Unidos, onde teriam sido encontradas pegadas humanas ao lado de pegadas de dinossauros. Foram escritos capítulos, livros e até “documentários” sobre essa evidência fascinante. Como os criacionistas enfatizavam bastante esse fato, um grupo de cientistas resolveu estuda-lo minuciosamente. Eles encontraram um tesouro perdido da história social humana. Durante a depressão americana, alguns dos habitantes locais faziam dinheiro ao cavar pegadas na rocha e vende-las. Eventualmente, alguns criacionistas, como o autor do livro sobre registros fósseis, anunciaram que as provas de Palury eram realmente farsas. Entretanto esse exemplo ainda permanece em muitos livros criacionistas como evidencia de que homens e dinossauros viveram juntos.

Sendo que os criacionistas científicos não apresentam qualquer explicação realmente científica para sua origem das espécies, eles gastam boa parte de seu tempo criticando a existência do registro fóssil. Um de seus principais argumentos seria o de que não é possível observar a presença das espécies intermediárias entre os filos conhecidos, o que seria esperado se a evolução realmente ocorresse. O que eles argumentam é que não há intermediários entre répteis e mamíferos ou entre peixes e anfíbios. Entretanto eles estão errados. Na verdade existem pelo menos cerca de dez formas transitórias bem definidas entre um réptil óbvio e um mamífero óbvio. Em meio a elas é apenas uma questão de preferência se as chamamos de répteis ou mamíferos. Outra forma de transição, o Ichtheostega, parece ser um peixe que modificou suas nadadeiras e sua musculatura para poder se locomover na terra. Análises de fósseis de Ichtheostega mostraram que ele apresenta uma cauda bastante similar à cauda dos peixes, assim como a disposição de suas vértebras. Sua cintura pélvica e peitoral, entretanto, parece ter sido modificada para produzir um ombro e pelve similar às dos anfíbios que seria capaz de permitir a movimentação em terra. Outras formas de transição já foram também bem-documentadas, o Seymouria, o primeiro animal com características reptilianas em seu crânio e membros ainda possui mandíbula e características vertebrais típicas de anfíbios. O pássaro mais antigo conhecido, Archeopterix, é bem conhecido, possuído dois fósseis bastante bem preservados. Ele teria sido provavelmente classificado com réptil se não fossem encontradas marcas bem definidas de suas grandes penas.

Em resumo, os criacionistas não têm evidências de que a vida foi criada durante uma única semana de criação. A evidência fóssil está decididamente contra isso. Nenhum criacionista é capaz de explicar como os fósseis se formaram e se agruparam em camadas de uma forma que imite a historia evolutiva tão bem. Eles ainda não têm qualquer alternativa científica para explicar a formação do registro fóssil.

A última (e mais absurda) explicação dos criacionistas sobre o registro fóssil é a de que Deus teria então depositado os organismos nas camadas geológicas de acordo com um padrão que imita a evolução para testar a fé dos fiéis. Eles dizem que “resultados de experimentos científicos não importam, uma vez que a verdade já é conhecida”. Isso invalida completamente a palavra científico do “criacionismo científico” e o transforma em uma simples crença fundamentalista e cega de razão.

Crendices Evolutivas


Infelizmente, muito do que os não-evolucionistas pensam sobre a evolução está incorreto. Muitos estão certos de que o homem é o animal mais evoluído do nosso planeta, de que ele veio do macaco e que a evolução sempre tem sentido de progresso. Outros acreditam que, com mais alguns milhares de anos de evolução os humanos ficarão com uma aparência do típico alienígena que ronda a mente das pessoas: pele cinzenta, cérebro enorme, corpo franzino e olhos negros. Na verdade todos esses conceitos estão errados em maior ou menor grau e tentarei aqui explicar o porquê.

O primeiro conceito errado que se pensa em evolução é considerar um organismo mais evoluído do que outro. Na verdade, não existem organismos mais ou menos evoluídos, existem, sim, organismos mais e menos complexos. Por exemplo, o homem é muito mais complexo do que uma ameba, porém é tão evoluído quanto ela. Isso vem do fato de que se acredita que todos os organismos do planeta têm um ancestral comum, um organismo conhecido como progenoto que teria surgido há cerca de 3,8 bilhões de anos. Assim, a partir dele, teriam surgido todas as formas de vida do planeta, sendo que, portanto, todos temos cerca de 3,8 bilhões de anos de evolução.

Com relação à complexidade poderíamos considerar a capacidade cerebral como critério de complexidade e assim diríamos que o homem é o animal mais complexo do planeta. Entretanto, se nosso critério de complexidade for tamanho corporal, o animal mais complexo será a baleia jubarte.

Outro conceito que muitas vezes é mal compreendido é o fato de que o homem veio do macaco. Na verdade o conceito correto seria o de que tanto homens quanto macacos possuem um ancestral comum, que, a rigor, não seria nem homem nem macaco. Na verdade parece que nossa espécie, o Homo sapiens, apresenta maior parentesco evolutivo com dois outros primatas, o chimpanzé (Pan troglodytes) e o gorila (Gorilla gorilla). Várias evidências apontam que seriamos mais próximos do chimpanzé do que do gorila, mas essa questão ainda não foi corretamente respondida. Isso não significa que nos tornamos o que somos através de alterações nesse chimpanzé existente hoje e sim através de alterações num primata ancestral que gerou tanto o chimpanzé atual quando nós humanos.

Parece claro na mente de todas as pessoas que a evolução sempre trabalha para melhorar alguma característica do organismo que o torne mais adaptado ao meio ambiente onde vive. A evolução, para os leigos, sempre é sinônimo de progresso. Apesar de que esse conceito muitas vezes é verdadeiro, existem vários casos onde não se pode dizer isso, principalmente quando estamos tratando de populações pequenas. Nesses casos, a flutuação aleatória dos alelos (variantes gênicas) pode fazer com que um deles, menos adaptado, seja fixado numa população. Suponhamos a existência de uma comunidade humana de 20 indivíduos em uma ilha deserta, sem contato com o resto do mundo. Digamos que, nessa população, a princípio, 10 pessoas fossem tivessem graves problemas de miopia por motivos genéticos, mas que isso permita uma vida apenas um pouco mais difícil a eles. Digamos que, na primeira geração da ilha, por exemplo, os 10 míopes, 5 casais, tenham 10 filhos cada um, todos míopes. Já os 5 casais não-míopes teriam 1 filho cada, simplesmente porque não gostam de ter família grande, ou por qualquer outro motivo. A segunda geração de humanos dessa ilha já possui 50 pessoas com problemas de visão e 5 normais. Digamos agora que houvesse um problema de escassez de alimentos na ilha e que 50% da população tenha morrido, inclusive todos aqueles com visão normal. Tudo bem que esse é um exemplo forçado, mas realmente pode acontecer... Isso faria com que os 27 habitantes que sobreviveram tivessem, todos, problemas de visão. Por mais que pareça estranho, isso também é evolução biológica! Todos os habitantes dessa ilha daí por diante seriam míopes. Através de mecanismos evolutivos normais, passíveis de acontecer em qualquer lugar, os habitantes dessa ilha se tornaram menos adaptados ao seu meio ambiente. É claro que esse exemplo não é a regra, é a exceção, mas nem por isso deixa de acontecer, e é evolução.

Um conceito errôneo que é bastante difundido entre ufólogos de todo o mundo é o fato de que, se o homem continuar a evoluir por mais alguns milhares de anos ele irá se transformar no típico alienígena dos filmes americanos: pele cinzenta, cabeça e cérebro enormes, corpo franzino, sem pelos e olhos negros. Entretanto, não há nenhuma pressão evolutiva que leve a esse fenótipo e inclusive há certas pressões que o impedem de acontecer. Por exemplo, o tamanho de nossas cabeças.

Estudos feitos mostram que o ser humano é um dos animais que apresenta menor tempo de gestação com relação ao tamanho de seus filhotes ao nascimento e o tempo que se perde cuidando dele até que tenha condições de viver por conta própria. Na grande maioria dos animais os filhotes já nascem sabendo andar, com ossos completamente formados e são bem mais auto-suficientes do que a prole humana. Parece que esse foi o preço que pagamos por ter um cérebro maior e mais complexo.

Acredita-se que o tempo de gestação de um bebê hominídeo já tenha sido bem maior do que é hoje, entretanto, com o aumento de nosso cérebro houve a necessidade de diminuir o tempo de gestação. De forma contrária, não haveria como o bebê passar pelo canal do parto e ele poderia matar a mãe ao nascimento. Assim parece ter havido uma seleção daqueles que nasciam prematuramente, com o cérebro ainda pouco desenvolvido e com os ossos em formação. Por isso, os bebês humanos acabam por terminar o seu desenvolvimento fora do ventre da mãe, o que faz com que necessitem por um tempo muito maior do que outros animais, do cuidado parental. Considerando a passagem pelo canal do parto é que podemos dizer que não existe pressão para o aumento cerebral no ser humano e, muito pelo contrário, existe pressão para que o tamanho do cérebro continue estável, como tem sido durante os últimos milhões de anos.

Continuando com o problema dos ETs. Não existe também nenhuma pressão ambiental que leve à diminuição do tamanho corporal e à perda de pelos no corpo. Na verdade é fácil de perceber que o homem é o primata que tem a menor quantidade de pelos no corpo, mas, como não existe nenhuma pressão para perder os poucos pelos que temos parece que continuaremos assim ainda por algum tempo. Ou você acredita que as pessoas com poucos pelos e franzinas se reproduzem mais do que as outras? Com relação à pele e aos grandes olhos negros parece desnecessário dizer que também não existem pressões seletivas que levem à alterações dessas características nesses sentidos.

Além dessas crendices evolutivas citadas aqui, muitas outras existem e isso vem do fato de que pouquíssimas pessoas conhecem, de maneira correta, o modo como a evolução biológica acontece. É interessante difundir esse pensamento porque a evolução é uma ciência sólida e bem fundamentada, tanto quanto qualquer outra. A compreensão ampla da ciência e da evolução por parte dos leigos é importante para impedir que religiosos fanáticos tentem inserir nos currículos escolares lições sobre a bíblia, o alcorão e outras crenças baseadas em dogmas e sem qualquer fundamento lógico e científico, assassinando, assim, a liberdade religiosa e separação entre igreja e estado.

Entenda como funciona a evolução


A teoria da evolução dos organismos através da seleção natural, da forma como foi sugerida por Charles Darwin em seu livro “Sobre a origem das espécies” de 1859, já provou estar correta em muitos sentidos. Darwin, entretanto, não conseguiu mostrar como a variabilidade natural que existe entre os indivíduos podia ser gerada, já que em sua época, mesmo o conceito de gene era deveras obscuro. No século XX, as novas descobertas da genética e da biologia molecular nos permitiram entender de forma melhor o que são os genes, de que são formados e como acontece a evolução ao nível molecular. É interessante notar que pouquíssimas pessoas, mesmo no mundo de hoje, compreendem de fato como a evolução biológica ocorre. Entretanto, a compreensão dos mecanismos evolutivos, pelos leigos, é importante para prover à população geral, armas de ataque contra os mais diversos tipos religiosos que tentam comparar em pé de igualdade a ciência da evolução e o criacionismo bíblico.

Para entendermos como opera a evolução teremos que aprender um pouco sobre biologia molecular. Nosso corpo é feito dos mais diferentes tipos celulares presentes em cada tecido e, cada um deles, realiza sua atividade específica através da produção de proteínas específicas à sua função. Essas proteínas são compostas por longas cadeias de moléculas conhecidas como aminoácidos, e são formadas através da tradução do DNA através do código genético. Isso significa que a informação para a produção das proteínas está codificada no DNA presente no núcleo de cada uma de nossas células. Cada conjunto de três letras químicas do DNA (os nucleotídeos: A, C, G e T) codifica um determinado aminoácido. Por conseguinte, uma seqüência de digamos, 600 letras químicas do DNA, codifica uma proteína de 200 aminoácidos. Uma molécula de DNA é formada por duas enormes cadeias de nucleotídeos que se entrelaçam formando uma estrutura conhecida como dupla-hélice, que nada mais é do que duas fitas de nucleotídeos enroladas uma na outra.

Vários problemas podem causar danos em nosso DNA: a exposição à luz ultravioleta do sol e aos raios X, a ingestão de moléculas muito ionizadas (como os radicais livres), erros durante a replicação, presença de toxinas, etc. É interessante notar que, se o DNA fosse uma molécula que não sofresse danos e que não produzisse erros durante seu processo de cópia, a evolução não teria acontecido e é bem provável que não estivéssemos aqui.

O que importa, apesar de tudo, é que o DNA sofre danos e também erra em sua duplicação. Esses erros, na grande maioria das vezes, são substituições de bases, onde as letras químicas do DNA são trocadas. Se essa troca ocorrer dentro de um gene, uma área que leva à produção de uma proteína, existe uma boa chance de que essa proteína seja produzida de forma diferente da original, sendo diferente desta por um aminoácido. Considerando que a proteína original já funcionava bem, é mais provável que uma substituição leve a uma inativação ou diminuição da atividade química dessa molécula. Menos freqüentemente, entretanto, pode acontecer um aumento da atividade química dessa molécula e o organismo em questão pode realizar uma determinada tarefa de forma mais eficiente que outros membros de seu grupo, adquirindo, assim, uma vantagem adaptativa. Se, e somente se, essa vantagem fizer com que o organismo que a possui tenha uma prole maior do que os outros membros de seu grupo, essa nova característica (resultante de uma nova proteína produzida por mutação em seu gene codificante) irá substituir aos poucos a característica ancestral, menos adaptada.

É importante notar que a mutação gerada no DNA é ao acaso, não é possível prever o local da substituição e o tipo de substituição que irá ocorrer. Digamos que um organismo ingira muita celulose e não possua uma proteína (enzima) capaz de quebrá-la. Se, por acaso, acontecesse uma mutação numa determinada proteína já existente que a fizesse ter atividade de quebra de celulose nesse organismo, ele poderia conseguir energia de forma bastante eficiente. Se isso acontecesse, ele conseguiria produzir mais energia com menos esforço e isso, provavelmente, aumentaria seu sucesso reprodutivo, pois ele poderia investir esse esforço extra em atrair mais fêmeas. Entretanto, sendo que a mutação acontece ao acaso, isso poderá nunca acontecer... a proteína que se transformaria naquela que quebra celulose pode nunca ser mutada.

Se considerarmos, entretanto, que a taxa de mutação do DNA é de cerca de um erro a cada dez mil nucleotídeos por geração, podemos esperar que, ao longo de das gerações e de diversas duplicações do DNA acabe surgindo um indivíduo que possua a capacidade de metabolizar a celulose, passando seu legado às próximas gerações. Assim, se aqueles que conseguem utilizar a celulose tiverem uma boa vantagem com relação aos que não conseguem é de se esperar que, ao fim de várias gerações, só existam indivíduos que apresentam essa característica. E isso é evolução!

Digamos ainda que existiam duas populações separadas desses organismos, uma de um lado de um rio e outra de outro e que eles não consigam atravessar o rio. Considerando que a mutação que leva à produção da enzima ocorre ao acaso, ela poderia acontecer na população que está do lado direito do rio e não na que está do lado esquerdo. Entretanto, outras mutações poderiam acontecer nessa população que está do lado esquerdo do rio, sendo que através de mutações no DNA em regiões gênicas, que geram alterações em proteínas, eles poderiam produzir dentes mais afiados que os levassem a alterar sua dieta de forma a se tornarem carnívoros, não necessitando da celulose para a alimentação.

No exemplo citado, consideramos apenas algumas características, mas, na verdade essas alterações acontecem nas diversas características das duas populações de cada lado do rio. Assim, com o acúmulo dessas mutações e o passar de milhares de anos, pode acontecer das duas populações não conseguirem mais se entrecruzar, gerando novas espécies.

Nesse texto tentei explicar, para um leigo, como a evolução funciona ao nível molecular. Entretanto, para simplificar, foi necessário deixar de lado uma série de fatores mais complexos e, portanto, recomendo ao interessado que procure livros mais especializados sobre evolução, genética e biologia molecular para que entenda outros mecanismos que podem influenciar nesses eventos.